Recentemente, um amigo quis saber o que pensava sobre a possibilidade de financiar uma iniciativa, pensada para o mercado internacional, através do crowdfunding, com a expectativa de obter cerca de três milhões de euros.

A iniciativa, de manifesto interesse para a história da humanidade, acabou por representar uma oportunidade de aplicar o conhecimento, adquirido desde 2008, quando comecei a analisar as principais plataformas e projectos de crowdfunding e a seguir boa parte do que se tem escrito e dito sobre o assunto, em favor de um projecto sólido, proposto por alguém credível, com as competências necessárias para o implementar. 

Ao conhecer proposta e budget, procurei por uma linha de raciocínio que servisse para garantir, ab initio, as melhores condições para que pudesse competir melhor ao nível muito alto de exigência do tipo de mercado em que vai inserir-se, e introduzi áreas adicionais às originalmente planeadas, como merchandising, publicidade e comunicação, canais de distribuição e soft sponsoring

Considerando a dimensão do budgetaconselhei a concentração numa única plataforma de crowdfunding: o Kickstarter. Trata-se da maior do género, fundada em 2008, por Perry Chen, Yancey Strickler e Charles Adler. O Kickstarter conta regularmente com o suporte de pessoas em mais de 200 países, apresentando como resultados a ultrapassagem da barreira dos mil milhões de dólares financiados e um vasto histórico no financiamento de iniciativas com orçamentos na casa das dezenas de milhões de dólares. “Pebble Time”, “Coolest Cooler” ou ” The BauBax jacket”, entre diversas outras, são disso excelentes exemplos. 

Em alternativa, também na área do fundraising, outros caminhos poderiam ser percorridos, como o capital campaign. Mas o desafio, mesmo sabendo que o soft sponsoring e os acordos de distribuição poderiam servir para assegurar o budget, era o de transformar a iniciativa numa acção de crowdfunding, que despertasse a atenção do público e o seu desejo de participar, sem perder de vista que esse deve ser enquadrado de forma séria e pragmática – nunca como um processo “fácil” de angariação de fundos, alimentado pelo único argumento da necessidade, com a ideia de que as pessoas participam só porque as intenções são boas.

Em minha opinião, o interesse do crowdfunding assenta na autonomia, em relação à alienação de capital ou à cedência de outros interesses a investidores, que pode proporcionar aos projectos, e na redução de negociações que visem o financiamento, em áreas que podem ser melhor exploradas posteriormente. Por outro lado, não deixa de ser, também, uma forma interessante para testar com maior realismo o sucesso de iniciativas e produtos e de os divulgar, numa perspectiva de comunicação

Sendo assim, tendo o plano de negócio como base, no qual incluímos o impacto previsível das contrapartidas, dadas no âmbito do envolvimento na campanha de crowdfunding, procurámos responder a perguntas essenciais.

Primeiro. Quem? A credibilidade de quem se propõe executar a iniciativa é fundamental para o público. Considerando plataformas globais, essa credibilidade deve jogar-se em diferentes cenários. No caso, encontrou respaldo no portfólio do proponente, que inclui vários prémios internacionais. Para reforçar, ficou também apoiada por testemunhos de especialistas internacionais, reconhecidos mundialmente, e por críticas de jornalistas. Todos garantidos em dois eixos: o reconhecimento da capacidade de realização, demonstrada pelo proponente em trabalhos anteriores, e o interesse da iniciativa proposta ao financiamento, numa perspectiva de especialistas e crítica. 

Segundo. Por quê? Além do interesse natural da iniciativa, numa perspectiva do grande público, encontraram-se as razões que melhor potenciassem a participação das pessoas, em termos da adesão à campanha de crowdfunding. Se é importante contar com elas, também é fundamental questionar as razões pelas quais aceitarão fazê-lo. No caso, ficou decidida a retribuição imediata, repartida por diferentes níveis de participação, com contrapartidas como o merchandising e acesso a uma área privada de conteúdos, situada no site oficial da iniciativa, na qual poderá acompanhar-se o desenvolvimento na fase de produção,  que durará cerca de um ano. Estipulou-se, também, que teriam acesso privilegiado ao produto, uma vez chegada a fase de distribuição, sendo as primeiras beneficiárias, sem mais encargos. E estipulou-se um nível premium, para o qual se configuraram contrapartidas como a estadia e contacto directo com a equipa de projecto e experiências radicais, como o mergulho de profundidade, envolvido ao longo da produção.

Terceiro. Garantias. Criar expectativas em relação aos resultados obtidos via crowdfunding é normal, quando esse envolvimento for esclarecido e realista. Mas fazer depender a execução de um projecto dos resultados obtidos por essa via não é. Sendo assim, e considerando que a decisão foi no sentido de concentrar a proposta numa única plataforma de crowdfunding, de modo a garantir que os participantes poderão acompanhar a evolução de financiamento em tempo real, sabendo que essa é a única plataforma activada pela iniciativa, identificaram-se todos os caminhos de financiamento, naturais e na área do fundraising, que serão activados no fim, caso o resultado obtido seja inferior ao pretendido, para completar o budget programado.

Com este artigo, ao qual voltarei quando se justificar, espero contribuir para despertar o interesse das instituições de solidariedade pelo potencial do fundraising, neste caso na área do crowdfunding, se pensarem projectos internacionais que justifiquem a utilização de plataformas globais. 

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