Nos últimos anos tenho tido oportunidade de participar em acções de apoio a pessoas sem-abrigo de pelo menos cinco instituições e uma das coisas que notei, embora sem surpresa, foi que a quase todas faltava a maior parte dos dentes, o que afectava não só a sua auto-estima, conforme contaram, como por diversas razões tornava ainda mais difícil que deixassem as ruas. Ouvi-las acabou por levar a que em meados de 2013 começasse a trocar ideias com o médico dentista Paulo Varela, procurando em conjunto por uma solução que ajudasse a levar a medicina dentária às pessoas mais fortemente carenciadas. 

Claro que tanto eu como o Paulo sabíamos que uma solução que a médio prazo alterasse a realidade de forma significativa seria um resultado no mínimo inesperado, até porque em Portugal a falta de saúde oral ainda afecta uma percentagem muito alta de portugueses, em particular os que vivem em condições extremas de pobreza, como os sem-abrigo. Em parte por falta de cuidados essenciais, por exemplo relacionados com a alimentação e adequada higiene oral, mas sobretudo porque quando a implantologia está envolvida no processo os cuidados médicos são caros e as pessoas não podem pagar. Mas tudo o que pretendíamos numa primeira fase era encontrar uma resposta sustentável para pequenos grupos de pessoas apoiados por instituições públicas ou do sector social, que mais tarde pudesse ser alargado a clínicas e outros operadores da saúde.

Do meu lado tinha a experiência adquirida em 2003, quando como presidente de uma instituição desenvolvi a primeira unidade móvel de tratamento dentário em Portugal, com um programa baseado num modelo de prestação em condições de mercado a empresas com grande número de quadros, que ao mesmo tempo pressupunha a oferta dos serviços aos utentes encaminhados por instituições de solidariedade. O modelo utilizava as economias de escala para baixar radicalmente os preços dos fornecedores relacionados com o processo e compensava as perdas acumuladas na vertente social com parte dos resultados proveniente da prestação às empresas – ainda assim, libertando um resultado global positivo. Num único ano, apesar de incluir a radiologia e implantologia, foi possível tratar gratuitamente mais de 200 pessoas, sobretudo encaminhadas pela Santa Casa da Misericórdia de Setúbal.

Do lado do Paulo Varela existia a experiência consolidada com a prática clínica numa unidade hospital de referência, que foi determinante para a construção da visão de que acabaria por resultar o programa gratuito de medicina dentária ‘Sorrir não custa’, da Plataforma Global (PG) a que presido e de que o Paulo Varela é director clínico, que até à data chegou a 50 pessoas sinalizadas por três instituições e em vários casos incluiu o implante total ‘all-on-six. Ao contrário do programa de assistência móvel de 2003, que tratava situações específicas dos pacientes, o programa implementado experimentalmente pela PG em 2014 é orientado no sentido de devolver globalmente a saúde oral aos beneficiários, num processo gradual e significativamente mais caro, mas que do ponto de vista social faz também mais sentido.

O que me seduz no programa ‘Sorrir não custa’, não é só a possibilidade de responder a pessoas que de outro modo não teriam a mínima possibilidade de ser tratadas, mas a noção de que essa resposta lhes tem restituído maior dignidade e alguma alegria e pode ter sido importante para a sua reinserção social, uma vez que o efeito psicológico da mudança é um dos aspectos que mais influencia a sua motivação.

Obviamente que há ainda muito caminho por percorrer. O programa está há dois anos na fase experimental e além da colaboração de médicos dentistas, que contribuíram com a prática, os encargos têm sido suportados pela instituição. Mas a partir de 2017, quando passar à segunda fase, será possível testá-lo noutras condições e saber até que ponto poderá influenciar a realidade da saúde oral em Portugal, ao nível da lógica dos operadores e dos preços actualmente praticados.

Enquanto isso não acontece, as instituições de solidariedade interessadas podem conhecer melhor o programa através da apresentação feita pelo Paulo Varela no vídeo que aqui partilho. Caso desejem solicitar o apoio do ‘Sorrir não custa’ podem fazê-lo para os emails site@contumelias.com ou institucional@plataformaglobal.org.

 

Jim Withers e a medicina de rua