Neste livro Michael Edwards testa as convicções de quem como eu acredita na filantropia corporativa e com argumentos que merecem atenção, porque podem ajudar os “filantrocapitalistas” a aumentar o grau de consciência sobre a responsabilidade das acções que desenvolvem.

Partilho a sua linha de pensamento em pelo menos um aspecto: aplicada à filantropia corporativa, a lógica dos negócios não só não se ajusta às organizações sem fins lucrativos, aos movimentos da sociedade civil e à resolução de problemas sociais, como pode colidir com a mudança social que se pretende promover.

Mas, e ao contrário de Edwards, não temo que o “filantrocapitalismo” possa estar a privatizar a agenda global dos problemas sociais e a determinar quais devem merecer atenção mundial, ou que desvie parte significativa dos fundos internacionais para um punhado de grandes organizações não-governamentais, retirando-os a movimentos mais pequenos, por vezes com combates mais importantes. De resto, se olharmos aos exemplos de organizações como a Bill & Melinda Foundation ou a Ford Foundation, verificamos que esse perigo não existe. Os fundos que angariam não têm uma escala suficiente para criar um impacto que justifique a preocupação de Edwards.

Também não concordo que os “filantrocapitalistas” devam manter-se fora da esfera de acção das organizações não-governamentais, como chega a defender Michael Edwards, argumentando que as empresas já desempenham um papel importante no quadro do desenvolvimento e fariam melhor se ajudassem a resolver os problemas que criam ao mercado e deixassem a área social para a acção colectiva da sociedade civil – já que essa possui um longo historial de mudanças, desde as grandes conquistas sociais do século passado até ao presente. 

É certo que, como refere o autor, “pode investir-se em vacinas contra a malária ou em medicamentos contra o HIV. Mas nunca em vacinas contra a pobreza, desigualdade, violência ou corrupção”. O problema é que o facto de ser assim não retira a importância às vacinas e medicamentos, até porque uma boa parte da investigação na área da saúde tem vindo a desenvolver-se por causa dos fundos disponibilizados pelas grandes organizações “filantrocapitalistas”, com benefícios inequívocos para o desenvolvimento a nível mundial.

Mas o livro não deixa de ser interessante, embora por vezes transpire alguma bipolaridade, ora porque parece bem que as empresas actuem cada vez mais como as organizações do terceiro sector, ora porque parece mal que se dediquem à filantropia corporativa. De qualquer modo, penso que é um livro a não perder, com argumentos interessantes e bem fundamentados, desde que sem perder de vista o que me parece ser o problema de fundo de Michael Edwards:

O direito de intervir ao nível social e de investir nas causas e áreas que se entender, quando se entender, é de todos e de todas as organizações – sejam quais forem. E nesse aspecto não tenhamos ilusões: as intervenções bem organizadas e financiadas serão sempre importantes, desde que sejam sinceras e responsáveis e se integrem na lógica de complementaridade com os parceiros sociais, locais ou globais, que formam a lógica das instituições no terceiro sector. 

 

Michael Edwards, entrevistado por Susanne Lang, numa iniciativa do “Centrum für Corporate Citizenship Deutschland”

 

Somos Pobres Mas Somos Muitos